Monday, December 14, 2009

Random Sentences - Colecção

A intraquilidade do relativismo, deve ser tudo, menos um susto para a nossa calma.

Um elitista cultural é um mainstreamer fora de prazo.

E se a tua vida não der um livro?

Só tem problemas, quem tem alternativas

Be nice: adopt a lobby.

Your zapping problems are over: buy a book.

Sleeping tonight and singing tomorrow: the closed cycle of amateurs.

Timeless efforts and syndicated criminals.

Writing is reading and reading is writing. And vice-versa.

Real crisis: being inteligent and act accordingly.

Pre-fabricated politics and controversial lap dancers.

This cant be love, because i feel so well

Things get tough when you think rough.

Stereotyped punks and avant-gard behaved boys.

A idade da indiferença

Qual é a idade ideal?

Na infância queremos ser adolescentes, na adolescência queremos ser jovens adultos, na jovem idade adulta queremos ser adultos e realizar os nossos objectivos, em adultos vêm as crises dos 30's e dos 40's. Depois construímos alguma coisa (em teoria), e queremos voltar aos 20's. A terceira idade então não se fala. Acumulámos o conhecimento de uma vida. Com azar contamos os trocos para os medicamentos do colesterol e os dias para chegar o Natal (quando chega).

Porque é que fomos desenhados com esta percepção das idades? Apenas em pequenos intervalos nos sentimos bem com a idade que temos. E quando nos sentimos bem, há sempre um qualquer mentecapto a dizer que somos novos ou que somos velhos. E o que se perde neste processo? Acredito que em cada idade temos uma forma específica de estar e de pensar. Tendencialmente, ouve-se com mais atenção as pessoas com mais idade, do que as que têm menos. Associamos idade a experiência acumulada e desvalorizamos o que pensam os mais novos. Desperdiçam-se assim gerações de pensamento e ideias. E quanto é que custa uma ideia? Menos do que uma que não foi aproveitada.

O estado, do alto do seu poleiro, podia - e devia - legislar no sentido de oferecer uma aplicabilidade orientada para os resultados, envolvendo directamente os jovens nas decisões do país. Dar poder de decisão aos mais novos? Sim. Tal e qual. Não poder absoluto, mas equilibrar a balança nesse sentido. Sabendo que os aparelhos partidários detêm a exclusividade de quem deve ou não deve participar na vida política (e 80% ou mais das vezes enaltecem os traficantes de influência em vez daqueles que têm de facto valor), a dita legislação iria no sentido de impor uma quota mínima de jovens com assento parlamentar (tal como foi feito com as quotas mínimas para o sexo feminino). Desta forma, garantíamos a voz de uma faixa etária importantíssima na construção do País. Um pequeno exemplo, e curiosamente com 40 anos, a ida do homem à Lua. A média de idades dos engenheiros da NASA envolvidos no projecto era de 26 anos.
Argumentem o que quiserem.

Pequenos Sarilhos

Grassa um desrespeito profundo pelas crianças. Apesar da maior parte dos especialistas indicar a importância fulcral deste período da vida do ser humano, continuam a ser ignoradas quase todas as recomendações, e já se sabe, na falta de educação, impera a ignorância e os maus costumes.

Minimizar as crianças. Isto é uma constante. Já me deparei diversas vezes com pais ou familiares a criticar a personalidade da criança em frente da mesma. Falam dela na terceira pessoa, como se não estivesse ali, sujeitando-a a um acto de humilhação perante terceiros, "A Joana é muito nervosa, muito hiperactiva, é um problema levantar-se e ir para a escola". Tudo problemas sem dúvida. Mas serão minorados com sessões de flagelação psicológica? Não me parece. Imagine o que era estar numa sala e duas pessoas começarem a falar de si - mal ainda por cima - e voçê tem que ficar calado/a a assistir ao espéctaculo. Nestes momentos criamos o terreno apropriado para estas crianças serem adolescentes problemáticos. "Não percebo porque é que o Pedro é tão revoltado" Depois digam que a culpa é do governo, da escola ou das companhias.

Todas as pessoas gostam de sentir que a sua missão está cumprida. Muitos pais têm o argumento monetário. "Nós sempre lhe demos tudo.. não sabemos como é que isto aconteceu." Ao contrário do que muitos pensam, eu não vejo grande drama em proporcionar uma vida com conforto material aos filhos. Aquilo que é necessário entender é que essa possibilidade não substitui o acompanhamento e a atenção de que as crianças necessitam. Não há mal nenhum em forrar um quarto a brinquedos. Desde que se entenda que os sentimentos que as crianças precisam de sentir enquanto crianças, não será proporcionado por uma Barbie, uma Wynx ou um GI Joe (não sei se ainda há destes tipos mas tudo bem). Não acho que os pais sejam o melhor brinquedo dos filhos (como afirmam muitos psicólogos), mas serão certamente o seu melhor.. ou pior professor.

Noite

Sempre que falo com dinossauros da noite, dizem-me sempre que a noite está diferente. Que já não é a mesma coisa, é só miúdos, bebedeiras excessivas, já não há aquela magia. Os tempos mudam, as pessoas também e as novas gerações da noite pensam e agem de outra forma. A tal magia que os dinossauros falam, provavelmente, já não volta.

As discotecas são um caso estranho de análise; existe uma multiplicidade de espaços de divertimento nocturno, contudo, existe algo comum, em todos eles: desconfiança. Se abordar, com a mesma frase, a mesma pessoa, numa discoteca e no meio da rua às 4 da tarde, receberá, com toda a certeza, respostas completamente diferentes. Deve-se apenas ao factor engate? Não. Apesar do factor engate contribuir em larga escala para esta diferença de comportamentos, por si só, não justifica a estranha paranóia que inunda as discotecas.

Quando forem a uma discoteca (ou clube se quiserem), reparem na forma como a maior parte das pessoas olham umas para as outras. É como se estivessem à espera do próximo movimento furtivo. É por vezes engraçado, interpelar alguém para saber as horas ou pedir um cigarro e ver uma reacção idêntica à de alguém que está a ser assaltado num multibanco.

Os empregados, com raras excepções, apresentam regra geral, uma antipatia de todo o tamanho. As discotecas devem ser dos poucos negócios onde ainda é possível o pessoal de contacto (barmans etc..) ser altamente antipático e os clientes continuarem a frequentar o espaço.

Por último, como se vive um clima de desconfiança esquizofrénico, quando aparece alguém bem disposto de sorriso na cara, é visto como uma espécie de zombie. A conclusão imediata é que o indivíduo em questão é portador de uma valente moca. Pode estar só bem disposto, afinal de contas, saiu com esse propósito. Antes de sair à noite, qual é o seu propósito?

PS.. D?

O PSD atravessa mais uma das suas fases endémicas, em que sucessivos pseudo-líderes tentam chegar ao poiso. Alguns reclamam um corte geracional, deixando Marcelo de lado. Outros, reclamam alguém com capacidade de unificação e com altos níveis de popularidade (e sim, Marcelo leva grande vantagem nesta matéria).

Independentemente destas guerras - que nos últimos anos têm prejudicado mais a imagem do partido do que feito algo positivo por ele - a verdade é que nos últimos anos, o PS tem ganho eleições. Compare-se os indicadores económicos do ano 2000, repare-se que faltam 2 meses para chegar a 2010 e ninguém me apelidará de maluco se, eu adjectivar esta década, como uma década perdida. Não somos o primeiro país a atravessar uma década assim e a ter outra fulgurante a seguir. Contudo, é impossível mudar, se continuarmos a utilizar a fórmula demente e cadavérica dos últimos anos.

E é aqui que reside a grande falha do PSD: a incapacidade ao longo de todo este tempo, de explicar às massas, que toda a panóplia de serviços e benesses disponibilizadas pelo Estado, só têm contribuído para um aumento incapacitante da carga fiscal sobre as pessoas e as empresas, que servem exclusivamente meia dúzia de interesses e que depauperam a economia a um ritmo pujante. O PSD devia, de uma vez por todas, assumir-se claramente como um partido de direita, e deixar definitivamente o território das 'ofertas' para os partidos de esquerda.
Tem simplesmente, que centrar o seu discurso naquilo que é a alternativa ao socialismo desenfreado, cheio de auto-estradas, pontes e viadutos, e claro está, cheio de bancos para financiar esta irresponsabilidade. Se continuar a dizer que as benesses se mantêm em vigor, não existe nenhum factor de diferenciação.

Só mesmo o D no fim.

Cartas de Reclamação - A Sonolência

Um tipo que acorda mal disposto de manhã (todos os dias), escreve ao Instituto de Comportamentos em Sociedade (acho que isto não existe, mas não era de admirar que existisse) reclamando sobre os habituais procedimentos matinais em sociedade.

"Exmos. Srs.,

Permitam-me desde já sublinhar a importância da vossa instituição na nossa sociedade e agradecer pessoalmente o grande contributo que têm dado, no sentido de educar as massas e fazê-las perceber, que cumprindo pequenas regras, conseguiremos viver de uma forma mais harmoniosa e de certa maneira, de uma forma também mais relaxada. Desde a fundação da vossa instituição que noto uma significativa melhoria no comportamento dos portugueses em geral.

Contudo, há um ligeiro detalhe nas vossas orientações, que eu penso que deveria ser coberto, mas que - julgo que não seja propositado - não consta da vossa preciosa documentação. Falo do direito social que cada um tem em estar mal disposto de manhã.

Vou utilizar-me a mim próprio como exemplo; acordo todo o santo dia com uma má disposição digna de um abutre. Não exteriorizo essa má disposição de uma forma activa; se ninguém se meter comigo, eu também não me meto com ninguém. Agora, o simples facto de alguém me dizer "Bom Dia" com aquele tom de vendedor motivado, deixa-me de rastos. Até chegar ao trabalho, vivo num suplício: nos dias que preciso de abastecer o meu carro com gasolina, o simpático empregado da bomba fuzila-me no pagamento; ouço um bom dia, pergunta-me se tenho cartão de pontos, pergunta-me se é tudo e agradece no fim. E continuo eu o meu caminho, sempre um pouquinho mais mal disposto. Só quero seguir o meu caminho sem me chatearem! Mais uma provação: a portagem. Não dizer bom dia na portagem fica mal. Digo o bendito bom dia e sigo viagem. No emprego então, espera-me um pelotão ditatorial: vários bons dias, de torneadas cores e tamanhos, invadem a minha deplorável matinalidade. Fico assim, até ao meio da manhã, nesta luta indelével, refém do meu estado crónico.

Solicitava assim, por este meio, não em desespero (mas lá perto), a inclusão de literatura que aligeire o tratamento dado pelos bens dispostos aos mal dispostos no período matinal. Tendo em conta que os bens dispostos não têm culpa da nossa má disposição, e podem até não se aperceber da mesma, sugiro a utilização de um código ou um símbolo que nos identifique, e que impeça o bombardeamento de simpatia a que somos sujeitos diariamente. É a mesma ideia do "Do Not Disturb" dos hotéis mas para pessoas.

Esta é a única solução que me resta, não tentem sugerir-me yoga ou pacificações do género, já tentei tudo, continuo a acordar mal disposto.

Melhores Cumprimentos"

O Cerco

Iniciado outro ciclo legislativo, a incongruência entre as estratégias apresentadas para dar um novo rumo ao País e aquilo que na prática vai acontecer, começa já, cedo, a dar sinais de si.

De acordo com o governo eleito, parar com o investimento público (auto-estradas e demências de natureza similar) significa parar de incentivar a economia e contribuir para o descalabro total. É possível escalpelizar de forma fácil a questão das estradas, mas deixemos esse exercício para outro dia (só como nota de rodapé, para uma auto-estrada ser rentável, deve a mesma registar, um tráfego diário de 15.000 veículos, não sendo portanto difícil, pensar em meia dúzia delas que nem 1/4 deste valor atingem).

Não se pare então com o investimento público. Muito bem. Contudo, não parar com o investimento público, implica gastar mais dinheiro. Existem duas hipóteses de alimentar a besta: financiar a coisa com impostos (impossível, na medida em que a carga fiscal, quer das empresas, quer das famílias, já está no limite) ou fazer investimentos com retorno (no caso das estradas, os tais 15.000 veículos/dia que não se sabe bem de onde é que vêm, cada vez que se inaugura uma brincadeira destas).

Quando se gasta dinheiro da conta e não se arranja maneira de colocar lá dinheiro novamente o que é que acontece? Voilá.

Sem nenhuma saída, porque fazemos parte do Euro e as contas serão saldadas queira-se ou não, resta-nos cortar na despesa e manter o mesmo nível de impostos. Traduzindo, dar o mesmo e usufruir cada vez menos.
Sempre que reclamarmos mais Estado, devemos ter em mente onde é que o mesmo vai arranjar dinheiro para nos continuar a dar brinquedos (um bom exemplo são os estádios construídos no âmbito do Euro 2004, alguns deles votados hoje ao abandono, com retorno zero e sem nenhuma perspectiva válida que remende o imbróglio causado).

Cartas de Reclamação - O Desgosto

Depois da namorada pôr fim a 8 anos de namoro, um jovem de 23 anos decide suicidar-se, deixando claro está, a tradicional carta de suicídio.

"Olá Rita,

O que sinto hoje é tão avassalador como o dia em que te conheci. Mais avassalador que o primeiro beijo que te dei ou do que te disse ao ouvido naquele dia no metro. A intensidade desta dor supera tudo o que senti e que vivi contigo. Consigo fazer esta comparação porque é tudo tão vivo em mim. Depois do que me disseste há uma semana lembro-me de tudo como se fosse hoje. Inundou-me de sensações e sinto-me perdido num turbilhão estranho de mágoa, revolta e saudade. É insuportável.

Tento distrair-me durante o dia, faço tudo para que a minha mente viaje para outro sítio qualquer. É um esforço hercúleo. E patético. Não paro de pensar em ti. Até um simples cheiro de perfume me deixa paranóico. Mandei fora as cartas todas que me escreveste. Tive a falar com o meu primo sobre isto, ele diz-me que preciso de ser mais racional e que não devo ficar chateado contigo. As pessoas deixam de gostar o suficiente umas das outras. A vida é mesmo assim. Mas este dia-a-dia imensamente triste não é a vida. Sou eu sem ti. Para sempre. É este o meu drama. Pensar que não te vou ter mais nenhuma vez. E ter essa certeza em mim. Ouço em repeat a Someone Great dos LCD.. adormeço com lágrimas nos olhos e com o sonho em ti. Que não passa disso. De um sonho.

Falam sempre em tornar os sonhos em realidade. Tu conseguiste transformar a minha realidade num sonho. Literalmente. Não digo isto para te sentires mal, mas é estranho para mim constatar que muitas palavras têm agora outro significado. Hoje sou eu e as minhas circunstâncias. Hoje, mais tremendas que nunca. E o problema maior é que ninguém fala a minha língua. A de hoje, pelo menos. Se eu sinto isto tudo ao mesmo tempo, como é que posso ter calma? Ou esperar que o tempo cure o que quer que seja? O que eu queria, eras tu. Mas já sei que não te posso ter. Nunca mais.

Disse muitas vezes, a muitos amigos, que me pediam conselhos sobre como terminar relacionamentos, que nós é que somos importantes e que o que interessa é sentir que estamos bem. Hoje sou eu a conhecer o egoísmo - necessário compreendo - dessa retórica. Aquilo que eu decidi fazer hoje, não é um acto de coragem, pelo contrário, coragem era eu ficar aqui a lidar com o meu sonho. Isto é egoísmo, puro, não muito diferente dos conselhos que dei aos meus amigos. O importante hoje, é isto passar, ir embora. É eu ficar bem. E ironicamente, mesmo sem estarmos juntos, depois de eu fazer isto, sou eu que ponho um fim na nossa história. Perdoa-me o protagonismo, mas como dizem, é o que se leva desta vida.

Despeço-me de ti com um beijo, intenso como sempre, mas hoje, e também para sempre, com outro sabor. Deixo cá o meu sonho e parto sozinho, para outra realidade."

Cartas de Agradecimento - O Divórcio

A instituição divórcio, escreve uma carta ao estado português, agradecendo a constante evolução da sua quota de mercado.

"Digníssimos Senhores,

Durante o período a que suas excelências apelidam de "tempo da outra senhora" eu praticamente não existia no vosso país. Fiz muita pressão junto dos órgãos de comunicação social, tentando associar a minha existência, a uma sociedade aberta, moderna e desenvolvida, onde a liberdade de cada um era agora mais abrangente. O amor, queria eu que vocês entendessem, não era para toda a vida. E não sendo para toda a vida, o divórcio era inevitável. Mas no "tempo da outra senhora" ninguém acreditou em mim. A família, era o núcleo da sociedade. E assim, assisti, impávido e pouco sereno devo dizer, à construção de eternas histórias de amor. Ou pseudo-amor? Bom, vamos acreditar por agora, que seriam histórias de amor. E a paranóia pelo casamento foi de tal ordem, que enviavam vocês rapaziada para a guerra e as meninas casavam-se por procuração. E onde é que já se viu isto, um casamento sem noite de núpcias? Onde é que andava toda a gente com a cabeça?

Aquando da queda "da outra senhora" veio a liberdade e eu claro, não me fiz rogado e entrei país adentro. Onde chega a Coca-Cola, chega o divórcio. Eu, gostem ou não, faço parte da evolução social. Um homem ou uma mulher toma uma decisão, arrepende-se e tem como dar a volta a coisa. À custa, por vezes, de muito dinheiro é certo, mas ainda assim, tem como dar a volta. Não compreendo, de todo, a revolta de algumas instituições, religiosas por exemplo, contra a minha condição. Clamam o livre arbítrio para a humanidade, mas reduzem-nos a um amor que se revela a longo prazo moribundo e arcaico. O amor humano? Não me façam rir.

Compreendo por outro lado, que existe uma motivação económica agregada ao casamento. Faz parte da sua génese e contra isso, nada de nada. Agora, porque é que uma pessoa tem que morrer agarrada a outra só porque no início da vida teve que.. tratar da vida? E os que se casam com a paixão a sair-lhes pelas orelhas? Que não percebem que a paixão é o mais insidioso dos sentimentos? E que gostem ou não, passa. Não como vento, mas passa. E a teoria que depois da paixão vem o amor, não é uma teoria. Para o ser, precisaria de ser demonstrada, e quem, no seu perfeito juízo, consideraria o amor a médio prazo, uma verdade demonstrada?

Aproveito hoje, o dia do meu aniversário, para agradecer o vosso empenho tremendo em aumentar a minha taxa de ocorrência. Em Portugal, ao que parece, metade das pessoas que se casam, divorciam-se. Uns redondos 50%. Sei também que à volta de 70% desta taxa se deve a problemas financeiros, coisa que no vosso país, é o status quo. Este factor aliado à ideia de que o casamento é uma das vias para a felicidade, garante-me um futuro risonho. Deixo-vos um conselho e contra mim falo: não hipotequem a felicidade dos vossos cidadãos em nome da natalidade. A vossa libertação não deve depender de um papel.

Os jargões

O jargão, uma palavra por mim considerada, um valente palavrão, equiparável apenas, a esplendorosos termos como idiossincrasia, hermenêutica ou especificidade, tem uma natureza, no mínimo, preocupante. O jargão é, basicamente, a gíria utilizada por alguns grupos profissionais que caracteriza a sua forma de falar enquanto especialistas de um dado ramo: advocacia, economia, política etc..

Para que serve o jargão então? A justificação do lado de lá da barricada é que a precisão inerente a determinadas actividades profissionais não pode ter margem de erro considerável, sendo portanto necessária, a utilização de complexos termos, suficientemente diferenciadores e que dissipem qualquer confusão. Deste lado da barricada, defendo eu que o jargão serve, traços gerais, um grande propósito: aumentar margens de lucro de uma forma pornográfica.

A assimetria da informação está na base da desigualdade em termos negociais: quando não estamos completamente seguros daquilo que nos estão a dizer fazemos perguntas. É nesta fase que entra o jargão. Não compreendendo aquilo que o jargão nos quer dizer, resta-nos aceitar aquilo que ele prega. Esta codificação aparentemente harmoniosa serve curiosamente, praticamente em exclusividade, actividades que envolvem muito dinheiro e que são por costume, caras e indispensáveis: banca, justiça, política, economia. Apesar das desigualdades que provocam, as sociedades sem estes pilares, são lugares bem piores do que os que conhecemos hoje.

Tendo em conta que o Estado não nos consegue proteger da mesma forma que protege estas classes (porque depende das mesmas para sobreviver), devemos nós, esforçar-nos por conseguir descodificar estes enredos linguísticos. O caminho, para que a presença asfixiante do Estado, seja menor nas nossas vidas, depende também, daquilo que somos capazes de fazer.

Cartas Soltas - Medo do escuro

A morte tenta marcar consulta num psicólogo, para deixar de ter medo no escuro.

"Senhor Doutor,

Pretendo com esta carta antes de mais, sensibilizá-lo para a realidade que me prende e atormenta numa voraz vontade de viver a vida como outro conceito qualquer. A sociedade em que o doutor se insere, foi a que mais se desenvolveu na compreensão de fenómenos tortuosos. Diga-se de passagem, que foi também, a que mais se esforçou para os desenvolver e aplicar. De qualquer forma, esta introdução serve para explicar que o meu pedido vai no sentido de lhe mostrar que falo verdade e que não se trata de nenhuma brincadeira. Até à data, nenhum dos seus colegas acreditou nas minhas sinceras palavras. E deste problema doutor, tenho que me livrar.

Ora, por estranho que pareça, eu, a morte, tenho medo do escuro. Bem sei, que à luz de todas as percepções que a sociedade tem de mim, isto é no mínimo, um paradoxo. Mas eu não tenho culpa que me associem a uma coisa má. Eu não sou boa nem má. Nem vou buscar ninguém de barco. Nem tão pouco peguei numa foice na vida. Mesmo que uma coisa desses existisse, imagine a sujeira que não seria, levar as pessoas para o outro lado, ceifadas como se diz. Bem sei que é uma metáfora, mas mesmo assim, é um exagero de todo o tamanho. Portanto, como qualquer outra coisa que habita este mundo, tenho os meus medos e as minhas incertezas. O escuro é uma delas, e segundo percebo, é possível através dos vossos estudos, compreender este medo e fazer com que ele desapareça. Só peço um pouco mais de qualidade de vida. Já sei o que é que está a pensar. A morte a pedir qualidade de vida. É um paradoxo, bem sei. Mas se eu existo, estou viva. Compreende o meu drama? Estar vivo, não é o contrário de estar morto no meu caso. Aí tem doutor, uma coisa para pensar, vocês que tanto gostam de reflectir sobre tudo e mais alguma coisa. Eu, na minha simples existência, só quero perder este medo. Pensando bem e voltando atrás, se calhar estar morto é o contrário de existir, faz mais sentido. Assim podem incluir-me nestas vossas tiradas pitorescas.

Tendo tudo em conta, compreenda o meu sufoco, e guarde meia-hora do seu dia para mim. Bem sei que me dedicará uma eternidade daqui a uns anos, mas por agora, preciso só de meia-horinha durante umas semanas.

Certa da sua sensibilidade, aguardo notícias suas. De uma forma ou de outra, falaremos um dia (isto não foi uma ameaça doutor, a vida é mesmo assim, ou melhor, a morte é mesmo assim.. bom, como quiser, só não quero ferir a sua sensibilidade).

Cumprimentos,
A Morte"